Giveon e o dilema do soul: ‘Beloved’ é uma homenagem ou uma aposta segura?

Giveon-Polaroid-Cropped-01-e1751569916204

Giveon retorna com Beloved, um disco que chega carregado de expectativas e intenções ambiciosas: resgatar a alma do R&B dos anos setenta e, ao mesmo tempo, apresentá-la sob nova luz a uma geração moldada por algoritmos, refrões imediatos e vocais processados. Com seu barítono inconfundível, a marca registrada que já o colocou entre os grandes nomes do soul contemporâneo, o cantor parecia pronto para entregar uma obra de impacto. Mas, conforme as faixas se desenrolam, surge uma pergunta inevitável: Beloved é um mergulho profundo em suas raízes ou um projeto cuidadosamente desenhado para ocupar um espaço estratégico no mercado?

Um universo sonoro cuidadosamente construído

Desde os primeiros segundos, Beloved se revela como um trabalho feito com esmero e intencional. A sonoridade inspirada em nomes como Luther Vandross, Smokey Robinson e Barry White, artistas que marcaram sua infância por meio da mãe, cria uma atmosfera envolvente, sofisticada e emocionalmente rica. Ao lado do produtor Sevn Thomas, parceiro de longa data, Giveon recria com precisão as texturas da era clássica sem soar forçado ou caricato. A produção é limpa, precisa e calorosa. Sua voz passeia pelos arranjos com segurança e emoção genuína.

Nesse aspecto, o álbum cumpre sua promessa. Há ali um respeito verdadeiro por uma época em que a música priorizava sentimento, espaço e profundidade. Sua trajetória, influenciada também por vozes como Frank Sinatra, mostra que essa escolha estética não é apenas nostalgia, mas uma tentativa de revelar sua essência como artista.

Quando a imersão se quebra

No entanto, conforme o álbum avança, começa a surgir uma tensão entre passado e presente. Se no início Beloved soa como um tributo sincero a uma era de ouro, em certos momentos o disco cede a estruturas e temas mais próximos do que já foi feito anteriormente por Giveon. Ele mesmo já se definiu como alguém contemporâneo, e essa modernidade aparece de forma clara em algumas escolhas que parecem buscar manter o ouvinte conectado, ainda que à custa da coesão da proposta inicial.

giveon-interview

Essa oscilação compromete a imersão. O que poderia ser uma obra ousada, totalmente entregue à estética setentista, se torna por vezes uma continuação segura de seus trabalhos anteriores. A sensação é de que há receio em abraçar por completo a proposta mais arriscada. O discurso de “talvez perder alguns fãs para conquistar outros” soa mais como precaução de mercado do que como atitude artística corajosa. Giveon quer ser o novo rosto da música soul, mas ainda caminha com um pé preso às fórmulas que o consagraram.

1639003078286

Um talento inquestionável em busca de coragem não há dúvidas sobre o talento de Giveon. Sua voz é rara, seu controle vocal impressiona e sua sensibilidade musical é evidente. O que falta a Beloved não é qualidade técnica, mas decisão. O disco tenta ser duas coisas ao mesmo tempo: uma homenagem à tradição e um produto atual e comercial. Ao buscar esse equilíbrio, corre o risco de não alcançar plenamente nenhuma das duas intenções.

Beloved é belo, bem executado, com momentos emocionantes e arranjos refinados. Mas também é comedido. Deixa no ar a impressão de um projeto que poderia ir além, que poderia se permitir mais ousadia, mais desconforto criativo, mais identidade própria. Giveon nos mostra um mapa sonoro riquíssimo, nos conduz até a entrada de um universo fascinante, mas parece hesitar antes de explorá-lo por completo. É o som de um artista em transição, com talento suficiente para se tornar uma referência, mas que ainda opta por trilhar o caminho mais previsível.

O álbum está disponível em todas as plataformas digitais e certamente merece ser ouvido. Ainda que não atinja todo o seu potencial, Beloved marca um momento importante na trajetória de Giveon. Não por aquilo que conclui, mas pelo que sugere. É um ponto de partida, não de chegada. E esse ponto já diz muito sobre um artista que tem tudo para se reinventar com verdade, coragem e profundidade.

por Vitor Feitoza

Deixe um comentário