[Total Flex] Bate-papo da depressão


É muita bobeira se eu passar o número do celular, esperando ele me ligar? E se eu chamar pra sair?

Não, jamais vou fazer isso. É apenas meu amigo. Nunca vai pensar algo a mais, nem deve sentir nada por mim. Vou esquecer. Isso de tentar apressar uma aproximação, forçando as coisas, nunca dá certo.

Eu sempre começo a conversar, me apaixono pelas fotos, me apaixono pelas conversas, imagino um príncipe e, quando conheço pessoalmente, vejo que não é aquilo que pensei. Provavelmente, dessa vez será assim. Enquanto eu estou imaginando como pode ser nosso futuro, ele deve estar com outra pessoa. Pensando em outra pessoa. Querendo outra pessoa.

Eu me sinto um lixo por não conseguir ao menos conquistá-lo. Não consigo chamar a atenção dele, tampouco dizer que ele está sendo desejado por mim.
Não vou mais provocar. Não vou mais chamar. Não vou mais olhar as fotos e nem faço questão de tê-lo como amigo. Se ele estiver interessado, ele virá conversar por vontade própria.

Mas e se ele também estiver confuso? E se ele estiver esperando o meu próximo contato para também dizer que me quer? Pode ser que não tenha percebido o quanto o quero. Talvez eu esteja perdendo a chance de ser um pouco feliz ao lado dele…

Vou chamar para dizer um “oi”.
Perfeito, ele visualizou. Respondeu.

Agora o nervosismo tomou conta de mim e não sei o que escrever.
“Gosto de você…” Ele visualizou. Dessa vez, não respondeu.

E agora? Eu não devia ter chamado. Que mancada! Deve estar me chamando de idiota, por tabela.

Espera, ele está digitando… Ai, minha nossa…
“Também gosto de você… Como amigo!”
Ok, entendi.

[Total Flex] Espelho da alma

Rodrigo era um rapaz estressado. Na faculdade, sempre brigava com os professores por causa das matérias mal explicadas e trabalhos difíceis. Em casa, nunca acordava bem. Coitada da mãe, que sempre queria puxar assunto e acabava no vácuo, sem respostas ou apenas com “uhum”. No ônibus para a faculdade, ficava bravo com a quantidade de gente que ia em pé e as condições desumanas que a empresa oferecia.


Não gostava de conversar. Sentava na poltrona – quando conseguia – e se desligava do mundo quando colocava os fones de ouvido com a música no volume mais alto que podia. Sem exageros, Rodrigo era o homem mais carrancudo que aquelas pessoas já viram. Sorte delas que ele não tinha aula todos os dias. Sorte dele que ninguém puxava assunto. Odiaria tudo aquilo de cumprimentos e de se conhecer, investigar a vida dos outros e relembrar coisas inúteis do passado.

Foi numa noite chuvosa, daquelas noites que Rodrigo mais gostava, que ele conheceu uma garota que mexeu com seus sentimentos, o fez pensar que tudo aquilo, de estresse e braveza, não fazia sentido, que era preciso se abrir às pessoas, ser receptivo.

A garota alternava os movimentos entre digitar no celular e se maquiar. No pouco tempo em que estiveram juntos naquele ônibus, Rodrigo contou pelo menos sete vezes em que a garota pegou um espelho pequeno de dentro da bolsa. Ele a olhava pelo canto dos olhos, mas via perfeitamente os movimentos leves dela. Provavelmente, até o final do percurso – que durava uma hora – ele veria a garota fazer isso mais uma dúzia de vezes. “O que a incomoda?” Rodrigo não entendia. Todos naquele ônibus já estavam cansados de um dia inteiro de trabalho ou estudo. Alguns já dormiam, com os rostos amarrotados.

A garota pegou um creme da bolsa que parecia carregar o mundo. Passou nas mãos, esfregou, passou delicadamente nos cabelos. Rodrigo já podia sentir o perfume do creme exalando dos cabelos dela. Fechou os olhos e imaginou o que aquilo representava. Seria para ele? Para outro rapaz dali do ônibus?

Dormiu imaginando, sem coragem de tirar os fones e conversar com ela. Tímido, como nunca.

Quando acordou, a moça não estava mais ali. Tinha passado por cima das suas pernas e descido em algum ponto antes da faculdade. No banco do ônibus, a garota deixou cair o espelho. Rodrigo pegou-o nas mãos e enxergou alguém que ele já não conhecia. Enxergou um Rodrigo com o qual não gostaria de ser amigo, com o qual não gostaria de conversar, do qual teria até medo. Aquele espelho fez ele enxergar o que precisava mudar. Ele entendeu que precisava recuperar a aparência, mesmo que maquiando a tristeza com sorrisos e serenidade. Percebeu que o que incomodava aos outros era a mesma coisa que incomodava o seu jeito original de ser.