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[Caixa de Som] O rock nacional está cochilando…

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A primeira vez em que o Brasil teve contato com um rock mais contestador, agressivo e de grande sucesso popular foi com os Secos & Molhados, em 1973. Tudo bem que o trio vocal formado por Ney Matogrosso, Gerson Conrad e João Ricardo pode ser considerado muito mais roqueiro por suas atitudes do que pela música em si. A própria figura de Ney e trechos como “eu não sei falar na hora de falar / então eu escuto” já causavam incômodos aos militares que governavam o país e erguiam a bandeira da “moral e dos bons costumes”.

Mas o tempo passou. Os brasileiros passaram um tempo sem ter contato com um rock contestador, até que chegou a década de 1980. Com ela, vieram o movimento pelas “Diretas Já”, o Rock in Rio (que impulsionou o rock a virar moda por aqui), o enfraquecimento da ditadura e o tão esperado fim da censura, que, embora tenha demorado um pouquinho para desaparecer de fato, deu um ar de mais liberdade, inclusive ao rock nacional.

Por conta disso, o Ultraje a Rigor pôde chamar àqueles de mereciam de “Filha da p…” (em claro desafio à censura), o Paralamas do Sucesso teve a oportunidade de lançar o seu mais bem-sucedido álbum de estúdio “Selvagem?”- um disco contestador por natureza, que chama a atenção para a desigualdade e exclusão social no sucesso, “Alagados” e alerta para o futuro das crianças em “Teerã”, segunda faixa do disco que leva o nome da capital do Irã. Até mesmo o RPM, grupo de maior sucesso da década, falava em revolução e convidava o público a fazer parte dela em “Rádio Pirata”.
Tudo ia bem, até que chegaram os anos 1990. Como são comuns, as tendências mudam e o rock acabou sendo engolido pelo sertanejo, que virou febre entre o público. Naquele momento, algumas bandas acabaram e outras caíram para a chamada “segunda divisão”, ou seja, não deixaram de existir, mas, sem espaço, acabaram sendo deixadas de lado pela mídia e grande público.

A partir da segunda metade da década de 90, o sertanejo acabou perdendo um pouco de sua força e, neste período, novas bandas apareceram. Nesta fase, apareceram Raimundos – misturando hard core com influências nordestinas. Apesar de não ter tido o compromisso de tocar o dedo em questões sociais, a banda brasiliense merece créditos por causa de suas letras politicamente incorretas e transgressoras. Surgiu nesta época também o Charlie Brown Jr., que, em músicas como “Não é sério”, chamou a atenção para a forma como os jovens são tratados no Brasil.

Mas aí entramos nos anos 2000. Uma leva de bandas apareceu. E o movimento do qual tais grupos apareceram tem nome: Emocore. O que se viu a partir daí foi o retrato mais fiel da “dor de cotovelo”. Para os ouvidos do grande público, chegavam músicas melosas, superficiais, que falavam em sua maioria de amores malsucedidos e abandonos. Até então, nenhuma guitarra havia sido tão chorosa.

E como consequência disso, o rock nacional deixa, a cada dia que passa, de ser transgressor. Hoje ele vive comodamente em um ambiente limitado, deixando de olhar para o que acontece em sua volta. Enquanto os amores perdidos são retratados, desvios políticos acontecem e pessoas continuam passando fome. E, além de questões sociais, também há outros assuntos relevantes para tratar. Basta ter força de vontade, e que o rock nacional desperte do seu cochilo, ou pelo menos abra os olhos para o que acontece ao seu redor.

Por: Rodrigo Almeida