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[Total Flex] Virada Clandestina – Onde a cultura independente tem lugar determinado

No próximo fim de semana, 20 e 21 de maio, acontece a Virada Cultural, mas como todos sabem o nosso excelentíssimo prefeito, João Doria Jr. resolveu extinguir alguns projetos que aconteciam na periferia e até mesmo do centro da capital paulista, e excluindo os artistas alternativos e periféricos da cidade, ofertando apenas o espaço de se apresentarem como voluntários ao evento, enquanto aos demais artistas da grande mídia dando visibilidade, cobrando caches altos e dando oportunidade duvidosa de ter sua imagem usada de forma irrestrita a prefeitura.

Fazendo isso a prefeitura mandou uma mensagem clara aos artistas e fazedores de cultura da cidade: “Dinheiro nós temos. Mas não usaremos para valorizar a cultura local“. Continuar lendo [Total Flex] Virada Clandestina – Onde a cultura independente tem lugar determinado

[Caixa de Som] Crowdfunding se firma como o mecenato da atualidade

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Nos tempos atuais, em que o mercado cultural está cada vez mais restrito, pois visa ao lucro certo e imediato, artistas buscam o próprio público para viabilizar seus projetos, como CDs, DVDs, shows. E o crowdfounding (financiamento coletivo) se firma como um mecanismo de concretizar os trabalhos com alguma segurança.

Surgido por volta de 2010 no Brasil, hoje já existem mais de 30 plataformas de financiamento coletivo de projetos, e as iniciativas ultrapassaram a seara musical e há financiamentos nas áreas ambiental, social, acadêmica, para ajuda a animais, a instituições de caridade, de fomento a pequenas empresas (inclusive produção de cervejas artesanais) etc.

campanha-juliana“Para os artistas independentes que não têm gravadora nem empresário para patrocinar seus projetos, e também têm dificuldade de conseguir patrocínio de empresas para seus projetos aprovados em leis de incentivo, o financiamento coletivo é uma alternativa um tanto interessante, pois quem escolhe se o projeto será finalizado é o público, são as pessoas físicas, que também podem sentir que fazem parte do processo todo. O público que gosta do artista, que realmente consome seu produto, vai aos shows, divulga o trabalho do artista no boca a boca”, diz a cantora e compositora Juliana Lima, que buscou a plataforma Catarse para finalizar a produção de seu primeiro DVD, “Aquariana” (para apoiar a produção do DVD, acesse catarse.me/julianalima).

Veja o anúncio da campanha de Juliana:

gustavoGustavo Rosseb, do trio Capela, também ressalta a importância desse meio de levar adiante produções artísticas a partir da colaboração dos próprios fãs: “A maior importância é que se trata do poder na mão do povo. Ao invés de esperar por aprovação em algum edital ou coisa do tipo, você pode ter seu projeto custeado por seus amigos, parentes e familiares. É mais fácil de fazer as coisas acontecerem”. O Capela obteve recursos para a gravação de seu segundo CD, “Sangue Novo”, também pelo Catarse. Além do CD, Gustavo – que também é escritor – está recorrendo a essa plataforma para produzir seu audiolivro.

“Hoje o financiamento coletivo tem ganhado muito espaço entre as pessoas que pretendem realizar algum projeto. Depender de editais e coisas assim faz com que você fique à mercê de alguém que está lá do outro lado, recebendo seu projeto para avaliá-lo. Um alguém que você não conhece. Que não tem (e não precisa ter) amor e respeito pelo seu trabalho. Você fica na dependência desse desconhecido para que seu projeto seja aprovado e em um tempo indeterminado. E quantos são os casos em que se escuta que o projeto não saiu?”, acrescenta Gustavo.

“O crowdfunding é o mecanismo ideal para viabilizar projetos com valores mais modestos ou que estão prestes a serem finalizados e é pelo apoio de pessoas físicas, pois contam com o envolvimento dos amigos, dos parentes e do público mais próximo inicialmente. Diferente de uma lei de incentivo como a a Lei Rouanet ou o Proac, que geralmente envolve valores bem maiores e contam com isenção fiscal de empresas e verba pública”, detalha Juliana.

Mas nem só artistas independentes ou fora da grande mídia tem recorrido ao crowdfunding. A plataforma Queremos!, por exemplo, proporciona que os fãs de determinado artista ou banda banquem a apresentação de seus ídolos. A plataforma foi criada em 2010 e já viabilizou a realização de mais de 80 apresentações de bandas internacionais – como Vampire Weekend, Tame Impala e Franz Ferdinand – e brasileiras, casos de Clarice Falcão e Paralamas do Sucesso.

Fundado em 2011, o Catarse é voltado a projetos nas mais diversas áreas, como arquitetura e urbanismo, esportes, teatro, educação, games, além da musical. Segundo o site da plataforma, já foram finalizados quase 3.100 projetos desde então, mais da metade deles em iniciativas voltadas às artes – música, literatura, cinema e teatro.

“O Catarse é a primeira plataforma de financiamento coletivo criada no Brasil, tem muitos projetos bem-sucedidos que passaram por lá, e por isso eles trabalham com seriedade. Na hora de fazer um projeto que tem um envolvimento tão grande de pessoas, é preciso fazer parcerias com quem tem credibilidade”, destaca Juliana, no qual é seguida por Gustavo: “O Catarse é uma plataforma famosa aqui no Brasil. Não só famosa, mas conceituada. Passa segurança para quem apoia e todo o respaldo possível pra quem tem um projeto por lá.”

Essa possibilidade de o próprio “consumidor” financiar o que gosta é uma das principais características desse meio que pode ser considerado o mecenato da atualidade. “Há muito tempo os valores e os papéis se inverteram. O financiamento coletivo é um modo, mesmo que singelo, de fazer as coisas retomarem seu devido lugar. Quem tem o poder de decisão é o público que escolhe o que quer ver e ouvir e não a indústria cultural”, ressalta Juliana.

E ainda observa outro ponto fundamental: “E rola um lance de economia criativa bem interessante. Sabemos que viver de arte no Brasil é outra arte! Eu já perdi a conta de quantas vezes ganhei dinheiro com a música e reinvesti tudo na música novamente, em equipamentos, em instrumentos, em gravações, em produções. Chega uma hora que você não sai do lugar e começa a morrer na praia. Por isso, buscar meios alternativos de financiar os projetos culturais é um modo de prosseguir com esse sonho, que é respirar a arte e espalhá-la por todos os cantos que eu passar”.

As plataformas costumam cobrar um percentual da arrecadação a título de remuneração pela intermediação do serviço, mas há outras que não cobram. Em geral, há uma meta de valor a ser alcançado em determinado período. Se não for alcançado, os que apoiaram têm o dinheiro de volta – é a modalidade “tudo ou nada”. A maioria das plataformas exige que os artistas retribuam a colaboração com alguma recompensa, que vai de um CD autografado a ingressos VIP para os shows viabilizados.

Veja algumas plataformas para financiamento coletivo:

Catarse – para os mais variados projetos; cobra comissão de 13% se o projeto se realizar.

Kickante – para iniciativas de causas sociais e de empreendedorismo; cobra 15% para projetos que não alcancem a meta e 12% dos bem-sucedidos.

Benfeitoria – para iniciativas variadas, inclusive inclusão social e saúde; não cobra comissão, financia-se por meio de doações.

Juntos com Vc – para ações sociais tocadas por pessoas físicas e ONGs; não há comissão, mas cobra taxa de administração para acolher as doações.

Bicharia – para arrecadar fundos de projetos que atendam à causa dos animais; cobra 10% do arrecadado mais taxa de administração.

Queremos! – para o público financiar shows de suas bandas preferidas e para artistas e produtores em busca de apoio aos projetos; cobra 15% sobre os ingressos vendidos.

Impulso – foco em microempreendedores de baixa renda; há seleção prévia dos projetos; cobra 12% do arrecadado em projetos bem-sucedidos.

Social Beers – para financiar produção de cervejas artesanais; taxa de administração varia conforme a complexidade do projeto.

Bookstart – financia publicação de livros inéditos por meio do mecanismo de pré-venda da obra; atende a autores e editoras; cobra taxa de administração em caso de sucesso da campanha, variável conforme os custos envolvidos.

Variável 5 – financia projetos culturais; é ainda uma agência de comunicação e produtora cultural; cobra comissão de 11% se o projeto for bem-sucedido.

Viabilizza – para apoio ao esporte e gestão de projetos esportivos; aceita também financiamento de livros ou filme sobre times, modalidades esportivas e atletas; cobra 15% do arrecadado.

Vakinha – para doar dinheiro para os mais variados fins: de compra de óculos a ajuda a quem perdeu tudo em um assalto; desconta as taxas cobradas pelos meios de pagamento: 6,4% do valor da doação por cartão de crédito; 2,99% por boleto; R$ 0,50 por transação e R$ 5,00 pelo saque.

Vasco Dívida Zero – específico para o time carioca honrar suas dívidas junto à Fazenda Nacional.

Eu Patrocino – para empreendedorismo; cobra 12% sobre o valor bruto arrecadado.

Por: Carlos Mercuri, do Blog por Bloga