O uso de IA já é algo constante em nossas vidas. A cada dia que passa, a inteligência artificial se torna uma ferramenta mais útil na rotina e no cotidiano das pessoas. A justiça artificial nos mostra a próxima etapa deste progresso: um futuro não muito distante em que um sistema de IA chamado Mercy é responsável por julgar e condenar criminosos com precisão impecável pela Juíza, Juri e Executora Maddox. Tudo ocorria muito bem e o mundo caminhava para, enfim, uma justiça sem falhas, até que o detetive Chris Raven torna o próximo a ser julgado e tem 90 minutos para provar que é inocente e não matou sua esposa; caso contrário, será executado.
Justiça Artificial tem uma premissa interessante. A trama mistura ação, suspense e investigação em uma temática futurista que não é tão distante da atualidade. Os amantes da série Black Mirror conseguem captar tranquilamente referências e inspirações de pelo menos três episódios da produção. A atuação de Chris Pratt é um ponto superpositivo; aqueles que estão acostumados com o Senhor das Estrelas e com suas dublagens em animações podem ficar tranquilos. Apesar de ser conhecido por papéis cômicos, Chris está muito bem no papel do policial Chris. É claro que ele não abre mão de alguns trejeitos irônicos, mas nada que comprometa a experiência.
Do outro lado, temos Mercy. Rebecca Ferguson tinha um papel difícil interpretando a Juiza Maddox, IAs e robôs na dramaturgia geralmente vivem o dilema do “sou vivo ou sou uma máquina?”. Já Maddox não tem dúvidas, ela é uma máquina. Mesmo sendo um programa, a Rebecca entrega uma atuação consistente com o que conhecemos hoje sobre inteligências artificiais. Não será uma máquina memorável como as de obras como Eu, Robô ou Exterminador do Futuro, mas tem seus momentos. Somente no terceiro ato, quando haveria espaço para mais destaque, a atuação não corresponde totalmente às expectativas.
Falando em último ato, o roteiro do filme é consistente, simples, mas se perde em alguns clichês. A trama tem um bom começo e se desenvolve muito bem; porém, a partir da segunda metade, ficamos numa gangorra de altos e baixos. O julgamento e a defesa de Chris têm consistência, com resgates de elementos do passado na tentativa de provar a inocência. O problema é que, quando chegamos ao primeiro plot twist, somos apresentados a um grande clichê, e o terceiro ato fica recheado de situações que já vimos em filmes desse tipo. O terceiro ato se sustenta pelo que foi construído lá atrás e pelo segundo plot twist, que aí sim dá uma virada de chave, trazendo uma ótima crítica social e um discurso muito atual sobre segurança e justiça. Sem dúvida, o segundo plot salva o roteiro e deixa o público ir para casa com uma boa reflexão.
O filme tem uma direção muito interessante, em que novamente vemos o uso da tecnologia e referências a Black Mirror, principalmente aos episódios “Toda a sua história” e “Crocodile”. A maneira como a tecnologia é utilizada torna o filme muito dinâmico, fazendo o tempo voar durante a sessão. Os momentos de ação são bons, destacando-se cenas em POV (point of view), com a câmera em primeira pessoa, que entregam grande sensação de realidade. Além disso, o fato de o filme ter sido exibido em IMAX só contribuiu para tornar o ponto mais alto da produção.
Justiça Artificial é um filme superinteressante, com uma mensagem atual que rende diversas discussões e opiniões. A obra sabe dialogar com o espectador e inserir o público na trama. Entre as produções recentes, é uma das que mais se destacam quando falamos sobre inteligência artificial, o papel da polícia e, principalmente, a justiça.
por Richard Henrique



