A Inteligência Artificial pode trazer funcionalidades, mas não tira a essência de criar e traduzir os sentimentos mais genuínos e autorais de um artista

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Recentemente uma ‘trend’ nas redes sociais está gerando polêmica, entre os artistas e designers, trazendo insegurança na criação autoral e fidedigna da arte, transformando ideias em meros objetivos de tendências fugazes e funcionais, em que elimina o processo criativo e apenas visa mostrar o resultado, sem se importar com a essência particular envolto na produção e desenvolvimento de um projeto.

Assim trouxe de volta um comentário que o diretor e cineasta dos estúdios Ghibli, Hayao Miyazaki, fez há alguns anos atrás sobre essa tecnologia que chegou sem pedir licença e atravessou todas as barreiras da moralidade, respeito e criatividade, transformando a essência artística em algo banal e comum, fazendo com que essa situação se tornasse assombrosa para o futuro, sendo um insulto veraz na vida do artista, mas também à humanidade.

Estou completamente enojado. Se você realmente quer fazer coisas assustadoras, pode ir em frente e fazer. Eu nunca desejaria incorporar essa tecnologia ao meu trabalho. Sinto fortemente que isso é um insulto à própria vida”, disparou o diretor em uma reunião em 2016.

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Assim também complementa o professor e quadrinista Danilo Aroeira sobre essa discrepância em usar a inteligência artificial como colaboração na arte, alegando que “ela é extremamente prejudicial desde sua origem: os modelos de linguagens são treinados em uma quantidade obscena de dados literalmente roubados ao redor da internet, compostos por imagens e textos que foram produzidos criativamente por seres humanos“; Já que desde sua criação ela tem o intuito em prejudicar os artistas, pois se utiliza de imagens “roubadas” pela rede para produzir algo completo e uniforme, o que acaba tornando a arte banal e momentânea, apenas para virar tendência nas redes sociais. “Além disso, nenhum de nós (artistas) é recompensando pelo uso que as plataformas de IA faz dos nossos dados. Em resumo, nossa propriedade intelectual é roubada para alimentar plataformas que são feitas para nos substituir, não para nos ajudar“, completa Aroeira.

Por isso, muitos artistas estão indo na contramão desta ferramenta, que pode facilitar aos leigos para entrar na trend do momento, mas desmoraliza o processo criativo, usando apenas para uma única e simples finalidade, excluindo por completo seus respectivos autores, tornando uma cópia em emoção, fugindo deste processo e tirando todo envolvimento de sapiência envolto ao sentimento ali realizado, “para tentar mostrar o que seria aquela emoção. Assim, como não vive a emoção, é mais uma forma de trabalhar assuntos como um ‘psicopata’ vê o mundo“, implementa o jornalista e cartunista José Alberto Lovetro. Tornando assim, um produto sem experimentação e nem autocritica, tirando o lado humano deste processo de desenvolvimento, com suas histórias, essências, virtudes, empatias, das quais a máquina não sabe dosar em quantidades relativas, entregando apenas uma imagem perfeita, mas sem coexistir de verdade.

A arte é um experimento democrático, em que cada indivíduo aprimora suas habilidades, seja na pintura, na música, ou na poesia, quando você elimina esse meio do processo, você elimina as distintas possibilidades em se conectar consigo para transmitir algo ímpar à sociedade, acabando toda intensidade de reprodução visceral criativa do ser humano, tornando algo de momento e funcional, em que se faz pelo hoje, apenas para cumprir o algoritmo, perdendo o próprio sentimento, tornando a magia de criar, pobre e desnecessária“, comenta a jornalista e quadrinista Helo D’Ângelo.

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Todavia, a inteligência artificial pode ser válida em alguns processos criativos, mas não para executá-los como finalidade à arte, prejudicando não apenas o processo de criatividade, mas também o desenvolvimento sensorial de produção, sendo usado como referência, mas não em seu resultado final, podendo assim ter um controle autoral e agilizar o processo de resposta dos projetos realizados.

Fazendo con que os “conhecimentos que raramente estão ao alcance dos artistas e agora, se bem explorados, potencializam enormemente a visão de negócio e a capacidade de executar a parte chata, porém, necessária para voos mais ousados“, assegura o ilustrador Zota Coelho. Enquanto o Danilo acrescenta dizendo que “ao incorporar IA ao seu processo criativo, o artista delega parte da sua obra à maquina, e abre mão da autoria, mesmo que em parte. Assim, ao usar IA, o artista deixa de evoluir sua capacidade crítica, sua sensibilidade e suas habilidades técnicas“.

Mas, quando utilizado com inteligência, percebe-se que “o que este mundo virtual nos oferece é um caminho de pesquisa. As escolhas, adaptações e, principalmente, as finalizações das artes são de exclusiva responsabilidade dos artistas. Jovens desenhistas sempre tiveram uma relação conturbada com cópias do trabalho de outros artistas já consagrados. Lembro-me de uma conversa com o emérito artista gráfico Jayme Cortez, em que ele me dizia não haver problema em copiar trabalhos de artistas consagrados, mas que essa prática deveria ser trocada pelo desenho a partir de modelos vivos ou de fotografias produzidas pelo próprio desenhista. Além, claro, do estudo de técnicas artísticas variadas desenvolvidas em escolas ou em grupos artísticos como a utilização de ferramentas como bico de pena, crayon, transparências, superposições, serigrafia e outros“, ressalva o cartunista Bira Dantas.

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No entanto, até mesmo a “cópia”, como dita acima por Dantas, há de ser feita com cautela e responsabilidade, para que não fuja da ética aplicada em seu desenvolvimento, usando-as de maneira consciente, séria e concludente, através de ferramentas técnicas que assessore as habilidades já praticadas, “passando pela produção executiva e até para trocar uma papo com o intuito de tirar você de uma linha de raciocínio previsível e, quem sabe, te estimular a olhar sua proposta por outros ângulos. Depende de até onde você está disposto a abstrair processos tradicionais para ousar o diferente sem ‘pré-conceitos’“, ressalta Coelho.

Todavia, o que a sociedade precisa entender, é de que a arte não substituível, assim como o rádio não superou o cinema, a TV o rádio, os artistas não vão se deixar levar por uma ferramenta que apenas visa o lucra e facilidades do capitalismo, porém a sociedade tem de que entender e observar os méritos artísticos, desarmando-se da tecnologia como funcionalidades para suas finalidades, para que a inteligência artificial não domine a inteligência natural, sendo algo que beneficie ambas as partes e não apenas uma que lucre, enquanto a outra sai lesada por uma tendência voraz que acaba “roubando” a criatividade do artista, que é um profissional liberal e autoral, e se sustenta através de sua arte, para que o processo de criação possa amparar e reconhecer que nada é criado do zero, pois quando se há respeito e distinção aos direitos autorais, respondendo com ética e discrição, só ganha é quem desenvolve algo autêntico e independente, fazendo com que as pessoas obtenham senso crítico em debater e conhecer novas diretrizes, e não apenas alimentar uma aptidão vaga e equivocada.

por Patrícia Visconti

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