Liniker envolve os ouvintes mais assíduos ao universo suculento de ‘CAJU’

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É sempre revigorante encontrar artistas que ignoram as fórmulas prontas do mercado e se arriscam em algo fora da curva. Quando um projeto desafia o que “agrada à maioria“, ele revela o quanto a arte é vital para aquele criador, que entrega o coração e alma aos fãs. Essa é a descrição perfeita para CAJU, o novo álbum de Liniker — artista que recentemente fez história como a primeira mulher trans a vencer um Grammy Latino.

Desde o lançamento, o projeto vem quebrando recordes e colecionando elogios tanto da crítica quanto do público. Embora não seja seu primeiro trabalho de estúdio, é certamente o mais popular e ambicioso, colocando Liniker sob um holofote monumental.

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A jornada começa com a faixa-título, CAJU cujos elementos sonoros nos transportam para um aeroporto. Sentada, aguardando seu voo, Liniker inicia uma reflexão profunda sobre autoestima e relacionamentos. Ela questiona o que procura em alguém e se essa pessoa estará disponível em momentos de vulnerabilidade. A letra convida o ouvinte a buscar paralelos em sua própria vida, tornando a audição sentimental e profunda. A interpretação vocal e a produção rica fazem desta uma abertura explosiva e cheia de identidade.

Em seguida, o ritmo acelera com TUDO. Aqui, as coisas ficam mais dançantes, mas mantêm uma composição coesa. A letra aborda um amor que termina, mas que ainda pulsa com o desejo de ter sido vivido intensamente. É uma celebração solar e rica do afeto. Já em VELUDO MARROM, uma das faixas mais longas do projeto, a artista abraça a simplicidade. A produção, centrada inicialmente em guitarra e voz, foca na intimidade profunda. É uma celebração do amor que toca o ouvinte pela crueza e beleza.

Seguindo essa linha, temos AO TEU LADO, com a participação de Amaro Freitas ao piano e da dupla Anavitória. O ritmo desacelera, permitindo que cada palavra seja sentida. O contraste entre o timbre aveludado e “pesado” de Liniker com as vozes agudas e suaves de Ana e Vitória cria um clímax emocionante quando os instrumentos ganham corpo. Em ME AJUDE A SALVAR OS DOMINGOS, o compasso volta a subir com elementos da MPB. A produção utiliza efeitos sonoros que nos transportam para os cenários citados, enquanto Liniker canta sobre a melancolia de um dia cinzento e a súplica por um amor que a ajude a superar a solidão dominical.

A energia muda drasticamente em NEGONA DOS OLHOS TERRÍVEIS, parceria com o grupo BaianaSystem. A canção é um convite para “arrancar a solidão com um banho de mar“. Um hino de autoestima para mulheres negras, cujas identidades são constantemente desafiadas pela sociedade. Com uma vibe praieira e astral elevado, tornou-se rapidamente uma das favoritas do público. No mesmo espírito de celebração ancestral, MAYONGA mistura samba-rock, soul e MPB. Mesmo curta, a faixa transborda riqueza ao falar sobre cura e a busca pela paz.

Chegando à metade do disco, PAPO DE EDREDOM, com Melly, explora o lado mais sensual e íntimo da artista. Já em POPSTAR, Liniker retoma o empoderamento para falar sobre negligência. Ela canta sobre um parceiro que nunca tem tempo, colocando-a em segundo plano — uma situação em que muitos se identificam. A produção aqui abraça um R&B envolvente, dançante e reflexivo.

O álbum surpreende com FEBRE, onde a cantora se aventura no pagode, narrando um romance cheio de “jogos”, mas que ainda assim fascina. Em POTE DE OURO, a parceria com Priscila Senna traz a “sofrência” do brega para falar de traição. A faixa, que ganhou um videoclipe cinematográfico, mostra a descoberta da infidelidade e a retoma da do poder pessoal.

Encaminhando-se para o fim, DEIXA ESTAR une Liniker a ícones da representatividade: Lulu Santos e Pabllo Vittar. A música é um mergulho no disco-groove, transformando o álbum em uma discoteca e celebrando o amor sem fronteiras. Logo depois, SO ESPECIAL, com o Tropkillaz, traz batidas eletrônicas misturadas ao bolero, com versos em inglês que elevam a pessoa amada a um patamar sagrado.

O encerramento fica por conta de TAKE YOUR TIME E RELAXE, uma carta aberta de Liniker para sua personagem, Caju. É um momento artístico de autoconhecimento, encerrando a jornada de forma serena. Ao concluir essa trajetória, a sensação que fica é a vontade de revisitar toda a discografia da cantora. CAJU tem tudo o que um álbum precisa para ser memorável: é coeso, intenso e demonstra a versatilidade de uma artista que não tem medo de se arriscar em faixas longas e gêneros diversos. Liniker não apenas fez um álbum; ela fez história.

por Nicolas Neves

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