Entre reviravoltas vazias e narrativa discrepante, a terceira temporada de ‘Euphoria’ se perde por completo em sua essência

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Muitas vezes celebrada por sua fotografia e estética glamourosa envoltas em trama adolescente, a série Euphoria, de Sam Levinson, marcou uma geração retratando as jornadas pessoais dos personagens em busca de um propósito em meio ao amadurecimento e à perda da inocência.

Sobrevivente de uma pandemia global e de diversos boatos nos bastidores, o enredo da terceira e última temporada alavancou a expectativa do público por um fechamento justo ao que vinha sendo trabalhado com tanta maestria em anos anterior – uma promessa que, na realidade, não conseguiu se sustentar com a temática proposta.

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Ainda sob a narração de Rue Bennett (Zendaya), a nova premissa gira em torno da adaptação dos jovens personagens à vida adulta e suas responsabilidades inéditas. Um salto temporal de dois anos foi utilizado a fim de justificar os acontecimentos pendentes da temporada passada: Rue se tornou uma mula para pagar as dívidas causadas pelas consequências de seus atos; Maddy Perez (Alexa Demie) agora tenta crescer na vida como assistente de uma grande empresária em Hollywood; Nate (Jacob Elordi) e Cassie (Sydney Sweeney), estão prestes a se casar; e por fim, Jules (Hunter Schafer) se afastou do grupo e agora sobrevive às custas de um cirurgião plástico, usando dos recursos dele para sustentar uma vida confortável.

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Também são introduzidos novos personagens com o intuito de assentar de vez essa nova narrativa — e substituir a saída de inúmeros atores e atrizes durante os anos. No entanto, o resultado é completamente divergente ao tom original que, por muitas vezes, aborda aspectos caricatos e histórias pouco aprofundadas, quase vazias da série. Um exemplo é o cafetão Alamo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), grande novidade por se tratar de um vilão visível e o combustível no decorrer dos capítulos, torna-se incoerente em inúmeros momentos e se mostra um personagem comicamente falho.

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A incongruência não se restringe somente a novos rostos, pois talvez a discrepância mais latente seja da personalidade de Nate Jacobs. A perspectiva da complexa relação com a masculinidade e, por extensão, suas ações problemáticas ao tratar relacionamentos foi apagada, substituída para servir de pretexto ao retorno da amizade forçada entre Maddy e Cassie.

Além dos problemas envolvendo o roteiro e os personagens, a saída do músico Labrinth do projeto afetou significativamente a qualidade sonora da produção. É evidente que momentos reservados ao trabalho do artista tiveram de ser alterados de última hora por harmonias genéricas, dificilmente mantendo a tensão ou o emocional da cena. A trilha sonora de Euphoria foi uma grande responsável pela criação e sustentação da identidade visual e o tom emocional da série como um todo.

Em sumo, Sam Levinson tentou transformar Euphoria em um recorte premeditado dos tempos modernos, frustrando elenco e telespectador no processo. A fotografia é um dos únicos conceitos imaculados na obra, adaptando-se bem às mudanças e guiando a história pelo último caminho reconhecível — apesar de tentar repetir, em alguns momentos, fórmulas já conhecidas.

A atuação, por sua vez, permanece em um local cinzento. Com a exceção de Zendaya, não se pode dizer com plena convicção de que os demais atores se entregaram de coração à proposta pressuposta do roteiro. Entre as inúmeras possibilidades a se trilhar, Euphoria escolheu a mais triste delas: extinguir sua essência até não restar mais nada.

por Nicoly Hissnaurd

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