A Copa do Mundo é sinônimo de muitas palavras: união, alegria, cor e talvez, a mais importante delas, orgulho. Para o brasileiro, vestir a amarelinha novamente reacende a esperança de conseguir, edição após edição, a sexta estrela bordada no brasão da seleção. No entanto, em contraste com a estreia contra o Marrocos e amistosos passados, o imaginário do público reside quase na resignação na volta iminente para casa. Entre as memórias nostálgicas de um tempo totalmente perfeito, Brasil 70: a saga do tri serve como um lembrete de que nem sempre o passado foi brilhante ou fácil.
A produção da Netflix – também responsável por outros documentários recentes envolvendo o futebol brasileiro como “Tetra: Acreditar de novo” — conta utilizando uma reconstrução histórica da turbulenta copa de 1970, a última com a taça Jules Rimet. Distante dos placares fáceis e do favoritismo, o enredo aborda as relações complicadas dos jogadores e seus próprios conflitos internos desde a estruturação do time principal à Copa do Mundo: Pelé, castigado pelas duas últimas copas devido à lesões, precisa lidar com o dilema de ser o pilar do time e os questionamentos externos em torno de sua capacidade para jogar. Outra história a se destacar é a de Tostão, centroavante com uma lesão ocular séria que, por pouco, não entrou em campo devido à sua condição.
Além disso, em pleno regime militar comandado pelo governo Médici (e, por extensão, do AI-5), a seleção brasileira precisou se equilibrar entre o deveres dos atletas como jogadores e, igualmente, de figuras públicas como ferramenta de comunicação e molde para propagandas políticas. João Saldanha, o primeiro técnico a convocar e treinar o Brasil nas classificatórias de 1969, declarava-se abertamente comunista e utilizava sua posição para contar ao mundo as hostilidades feitas pelo governo. O estopim que culminou em sua demissão foi a imposição do presidente para a convocação do atacante Dadá Maravilha. Após isso, às vésperas do Brasil embarcar para o México, Zagallo foi contratado para comandar o time e lidar com a rejeição dos jogadores, já entrosados anteriormente com Saldanha e suas táticas.
Ao olhar para o passado como mais do que apenas um título carregado pelos olhares dos torcedores, é evidente que, às vezes, é pertinente desmistificar o desânimo crônico do presente. Mesclar a dramatização da ficção com os fatos reais, Brasil 70: A saga do tri não só contribui para a nova geração conhecer e entender o peso do passado, como ajuda a lembrar aos veteranos mais apaixonados pelo esporte a resgatarem o peso e legado da camisa.
por Nicoly Hissnaurd

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