Na infância, aprendemos valores quando consumimos uma boa história. Seja a leitura de A cigarra e as formigas ou uma versão animada feita pela Disney, é fácil manter tais histórias no imaginário infantil e crescer com elas imaculadas na memória.
O interessante sobre lendas como Robin Hood é a simplicidade da situação: um homem que rouba dos ricos para dar aos pobres junto de seus companheiros. Quando crianças, seus atos são justificados por um ideal e cobertos por um manto heróico; ao crescer, percebemos que a realidade, talvez, pudesse ser mais complexa do que a perceção nos permitia enxergar.
Em A morte de Robin Hood, Michael Sarnoski — conhecido por Um lugar silencioso: Dia um e PIG – A vingança — explora as consequências sombrias das aventuras de um justiceiro envelhecido, preso em um ciclo extenuante de culpa. Longe de seus dias de glória, Robin Hood (interpretado por Hugh Jackman) decide ajudar seu amigo, João pequeno (Bill Skarsgård), no resgate de sua esposa e filha após ser descoberto usando as terras e o nome de um homem falecido.
Em certo momento, a missão acaba dando errado e Robin Hood termina aos cuidados da prioresa Brigit (Jodie Comer) e a filha de Pequeno João, Margaret — cuja atriz, Faith Delaney, atuou como a jovem Agnes em Hamnet: A vida antes de Hamlet.
Apesar de haver uma violência realista latente em grande parte da narrativa, alimentando as escolhas dos personagens quando entrelaçadas ao seu passado, o verdadeiro destaque de Sarnoski são os conflitos internos desenvolvidos ao longo do enredo. Engana-se quem pensa em uma trama movida pela ação: o filme mantém essa atmosfera introspectiva, quase contida, sobre a vida e os atos violentos de Robin Hood. Além de utilizar a religião como um meio para externalizar esses sentimentos, o espectador frequentemente depara-se com um familiar vítima da juventude de Hood, como se nunca houvesse uma saída para se desvencilhar do passado, nem mesmo na morte.
A trilha sonora também contribui para a proposta intimista, mantendo a tensão emocional exigida nas cenas. Em especial, o uso das gaitas de fole reforçam a ambientação, por muitas vezes, solitária e tornam-se um símbolo implícito do folclore popular inglês, aproximando-se das raízes da lenda.
Entretanto, a subjetividade de Robin Hood não reluz em todos os momentos de silêncio. Em alguns pontos, a trama acaba sobrecarregada pelo peso emocional e nenhuma ação, criando momentos de arrasto no filme. A mera associação ao mito, somado a um elenco e ao contexto medieval aplicado à mídia moderna conduz, naturalmente, uma expectativa mais movimentada embora compatível com o projeto.
Assim, A Morte de Robin Hood desconstrói e desmistifica o conto de uma das figuras mais proeminentes do folclore mundial ao apresentar uma perspectiva singular, humana e solitária. Dentro deste recorte, somos levados a questionar e a refletir sobre o que, de fato, é ser herói — e até onde a crueldade pode ser justificada e esquecida.
por Nicoly Hissnaurd





