Entre o caos da guerra e a sabedoria da literatura, àqueles que mantém os livros consigo pode ser considerado o mais radical da revolução. Envolto de palavras, histórias e momentos em que foge do descontentamento que assola a humanidade, cenários mais devastadores, mostrando que os livros são as maiores chances de sobrevivência contra os males causados pelo homem, não apenas para fugir da realidade, mas sim, habitá-la plenamente.
O romance O livreiro de Gaza, do autor franco-marroquino, Rachid Benzine, apresenta uma narrativa sutil e veraz. Em meio à devastação de Gaza, após percorrer ruas e vielas aniquiladas com a guerra, uma cena chama atenção e o que está por trás, o comove imensamente, entre as ruínas que separam um senhor sentado em frente sua pequena livraria, lendo de maneira tranquila como se esperasse por algo ou alguém, mas ensimesmado com seu livro nas mãos e uma vitrine empoeirada repleta de outras histórias.
Então, o autor ao ver a cena levantou sua câmera para o homem, e apesar do receio de quebrar o momento oportuno visto aquele momento, ele não percebe que está prestes de conhecer algo estranhamente novo e surpreendente, pois ao deixar que seja fotografado, o homem sentado, pede que o jovem fotógrafo ouça sua história, afinal, não há retrato melhor do que quando sabemos do que existe por trás dele, parafraseando o velho.
O livreiro de Gaza, uma odisseia sobre um homem que em meio ao caótico conflito enfrentado por seu país, escolheu as palavras como seu refúgio, deixando as histórias se envolverem com a pacata rotina, entre ruínas empoeiradas e páginas amareladas, em uma trama que fragmenta vidas, ressoa memórias e sana as dores de um povo, que vive desolação de um conflito árduo e doentio.
por Patrícia Visconti


