Lançado em 1988, Akira chegou aos cinemas brasileiros pela primeira vez em 1990 e agora é relançado em uma versão remasterizada em homenagem aos 35 anos da obra no Brasil. O filme é um marco para as animações japonesas no país, e o motivo é a sua história de ficção científica focada em distopia, política, gangues e filosofia misturados com uma bela animação feita à mão.
Roteirizado e dirigido por Katsuhiro Otomo, o filme explora uma Tóquio destruída por uma explosão misteriosa em 1988. No lugar da cidade foi construída Neo Tóquio em 2019, que sofre com atentados terroristas, conflitos de gangue e manifestações contra o governo atual. Diante disso, Kaneda e Tetsuo fazem parte de uma gangue de motoqueiros que disputa rachas com a rival “Os Palhaços”. Porém, o jovem Tetsuo acaba encontrando Takashi, uma estranha criança com poderes psíquicos que fugiu do hospital onde era mantido como cobaia.
Nesse encontro, Tetsuo é levado pelo exército e acaba desenvolvendo poderes também. Paralelamente, Kaneda se interessa por Kei, uma garota envolvida com espiões que tenta decifrar o enigma por trás das cobaias controladas pelo exército.
A distopia presente no filme é extremamente realista em abordar a crueldade e violência vivida em Neo Tóquio. A explosão trouxe desordem à cidade e os personagens procuram constantemente um equilíbrio em meio ao caos, o que contrasta de forma excelente com a “inocência” dos jovens Kaneda e Tetsuo.
A narrativa é ambiciosa pois se inicia com um conceito simples “apenas jovens andando de moto” e aos poucos a ambientação e diálogos revelam que existe algo muito maior pairando no ar. O filme escala para algo mais divino ao apresentar Akira. O personagem é colocado como uma espécie de “deus” e o principal responsável pela explosão de 1988.
Conforme o longa avança, a narrativa traz detalhes filosóficos sobre a infinidade do universo, identidade e humanidade em cenas e dinâmicas de personagens, principalmente no conceito dos poderes e no que é o Akira. Esses detalhes e temas mais complexos misturados com um grupo de jovens delinquentes, em um mundo cyberpunk, é o que torna esse filme tão único de se assistir pela primeira vez.
O mundo “pós-apocalíptico” de Akira não é só bem trabalhado em seus temas complexos junto da jornada, mas também possui uma animação feita à mão e uma trilha sonora imersiva que elevam a obra, reforçando sua identidade única. Isso transformou o longa em uma referência para filmes e séries. Hoje, a cena de Kaneda derrapando com a sua moto vermelha futurista e cheia de adesivos é um exemplo de como Akira marcou a cultura pop. Assim como a cena de Tetsuo perdendo pela primeira vez o controle de seus poderes – que virou um meme (leave me alone).
Apesar dos inúmeros pontos positivos, Akira não é um filme muito leve e fácil de se assistir, por conta da mensagem enigmática escondida e de cenas abertas para interpretação. O longa leva o espectador a refletir muito sobre a ordem da história, enquanto todo o caos acontece na tela, o que pode dificultar o entendimento do público de massa que não está acostumado com obras desse tipo.
Akira é uma adaptação de uma série de mangá com o mesmo nome. A coleção de seis volumes, escrita por Katsuhiro Otomo, foi lançada em 1982 no Japão e agora conta com um filme remasterizado disponível nos cinemas do Brasil.
por Milena Pierrot




