REPRESENTATIVIDADE NEGRA NOS QUADRINHOS: MUITO ALÉM DO PANTERA NEGRA

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Uma pauta muito discutida e frequente nas mídias sociais, que se estendeu para todo tipo de produção audiovisual e literária até alcançar o concurso Miss Universo é a representatividade negra e especialmente a visão positiva que ela expressa para pessoas negras de que podem ocupar papéis de destaque. Dessa forma, ao se enxergarem em pessoas reais e admiradas ocupando esses lugares e lhes dando voz os faz acreditar que ser protagonista é possível.

milena-da-turma-da-monica-1548686315555-v2-450x600Um exemplo que expressa o quanto é importante a representatividade negra é recente: a coroação da modelo sul africana Zozibini Tunzi como Miss Universo 2019, uma mulher negra que ousou subir ao pódio usando seu cabelo crespo natural, desmistificando um concurso que durante décadas escolheu modelos brancas de cabelos lisos como “mulheres mais bonitas do mundo”. Tunzi afirmou em seu discurso de agradecimento que gostaria que todas as crianças negras vissem seus rostos e sua beleza refletidos nela.

A modelo ainda acrescentou que a sociedade foi programada para não ver a beleza negra, mas que felizmente isso está mudando e as mulheres negras podem finalmente saber que são bonitas. Essa fala não cabe somente ao âmbito dos padrões de beleza como também profissional, pois ainda existe um pensamento retrógrado e racista intrínseco principalmente em sociedades outrora escravocratas, como é o caso do Brasil e EUA, que insinua que pessoas negras sejam inferiores. O papel da representatividade é essencial para desmentir essa visão, pois ao vermos alguém como Barack Obama ser eleito presidente, um leque de possibilidades é aberto para que outras pessoas negras se vejam ocupando cargos de liderança que até então só eram ocupados por brancos.

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E não apenas nesses casos, mas em qualquer outra profissão, como a de jornalista por exemplo: Oprah Winfrey foi pioneira para que outras mulheres negras como Maju Coutinho pudessem adentrar na profissão e inspirar cada vez mais outras meninas que desejam se tornar jornalistas.

A necessidade de haver representatividade negra é perceptível em especial quando observamos lugares nos quais as pessoas brancas são maioria e às pessoas negras é dito que “não fazem o perfil da empresa” ou mesmo quando acontece de serem confundidos instantaneamente como faxineiros ou empregadas – estereótipos perpetuados em particular por produções televisivas, nas quais à “Tia Nastácia” não é atribuída nenhuma função além de servir “Dona Benta” e seus netos. Suposições como essa são exemplos de como a escravidão e herança dela, além de pensamentos arcaicos, dificultaram ainda mais a vida das pessoas negras e essa quebra de paradigma feita por personagens como Apollo Creed (franquia Rocky) e Tempestade (Marvel Comics) é indispensável para que a sociedade possa perceber que negros podem ser heróis.

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Assim como pessoas reais, personagens fictícios também tem um papel fundamental nesse propósito, primeiramente para quebrar estereótipos racistas construídos e mantidos através de séculos, e embora empresas como Disney e Marvel hoje tenham personagens negros empoderados em seus filmes enquanto buscam inovar com o passar do tempo, ainda deixam a desejar em muitas questões, de preferência em relação à produção audiovisual.

A Walt Disney Company possui uma famosa linha de produtos intitulada “Disney Princesa” composta por onze protagonistas femininas que estrelaram filmes da Walt Disney Animation Studios e Pixar e que existe desde o final dos anos 90. A empresa inseriu oficialmente Tiana (A Princesa e o Sapo), a primeira princesa negra, quase vinte anos após a criação da franquia, circunstância esta que se torna um pouco mais agravante quando percebemos que a primeira princesa negra da Disney foi criada 73 anos após Branca de Neve – a primeira princesa apresentada pelo estúdio – e teve nada menos que oito antecessoras, sendo cinco delas brancas, e até o presente momento a empresa não inseriu nenhuma nova princesa negra ao conjunto de realezas.

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O problema da Marvel se dá mais na questão cinematográfica do que nos quadrinhos, visto que o primeiro herói negro com filme próprio inserido ao MCU (Marvel Cinematic Universe), fazendo parte da equipe dos Vingadores (Avengers), franquia que existe desde 2008, foi o herói Pantera Negra, criado originalmente em 1966, porém que só foi adaptado para o cinema em 2018. E é exatamente com o príncipe de Wakanda que iniciaremos esse especial da Butantã Gibicon, herói que virou símbolo da luta antirracismo ao levar o nome do Partido dos Panteras Negras, também criado em 1966, que buscava o fim da segregação racial nos EUA. O filme se transformou num marco ao trazer elementos de diversas culturas do continente africano, além de ser uma produção protagonizada predominantemente por atores e atrizes negros.

Entretanto no que diz respeito à representatividade negra nos quadrinhos, o primeiro nome que nos vem à mente é inevitavelmente o príncipe T’Challa (Pantera Negra), quase que exclusivamente por sua contribuição na cultura pop através do cinema, porém pouco se fala sobre outros personagens que não façam parte de nenhuma das grandes editoras DC e Marvel Comics. Lembrar dos personagens mais famosos não é algo ruim, pelo contrário, visto que a contribuição deles para que novos personagens possam surgir é inestimável.

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A palestra “Representatividade Negra nas Histórias em Quadrinhos” apresentada na primeira Butantã Gibicon, na qual o ilustrador Marcelo D’Salete, a jornalista Fernanda Alcântara e o escritor Nobu Chinen discorreram exatamente sobre esta questão: como as pessoas negras estão sendo retratadas nas histórias em quadrinhos. Não somente como personagens, mas como autores, a representatividade caminha por todos esses aspectos, inclusive a relação que ela tem com a autoestima das pessoas negras ao colocá-las em evidência, algo que pode ser visualizado nas diversas notícias de crianças e adultos que perceberam o quanto esses personagens – ou pessoas reais – são parecidos com eles próprios, seja pelo vídeo do rapaz no trem de Nova York afirmando ser “jovem, negro e bonito” como Luke Cage (Marvel Comics/Netflix) ou a menina que não quer mais tingir o cabelo de amarelo e alisá-lo, porque viu que é parecida com a Miss Universo.

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Expor a diversidade em produções audiovisuais e literárias é essencial, uma vez que todos somos diferentes, trazer apenas um tipo de personagem é simplesmente errado, além de soar falso. Mesmo na ficção, na qual podem existir personagens com a pele azul, verde ou roxa, poderia um personagem negro ser considerado fora do comum?

Sentir-se representado quando não se encaixa no padrão eurocêntrico de beleza já é difícil, mas quando aqueles que já são totalmente representados pela mídia afirmam que a existência de um personagem como Miles Morales (franquia Homem-Aranha) é desnecessária enquanto reclamam que a sereia Ariel (A Pequena Sereia) não pode ser interpretada por uma atriz negra (Halle Bailey) é uma situação frustrante.

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Mais do que a existência de um personagem negro, a representatividade inclusive trata sobre protagonismo negro nas histórias não apenas em quadrinhos, mas na própria literatura, na construção de um personagem tridimensional, além de ser ativo na trama. Um dos estereótipos mais comuns construídos para personagens negros é o que ele seja o melhor amigo ou alguém que aconselha o protagonista (uma pessoa branca), mas que não possui impacto algum na história.

A ideia do protagonismo negro é trazer personagens que sejam o foco principal da história e possuam uma relevância significativa para o andamento da trama, como por exemplo o herói Super Choque (DC Comics): um adolescente afro-americano com poderes de eletricidade, que tenta conciliar sua vida de super herói com os estudos e sua relação com a família e os amigos, além disso, suas histórias ainda acrescentam discussões sobre racismo e violência.

536addd591df85a24deaecc9fe4e73cfA HQ brasileira “Jeremias – Pele”, feita pelo quadrinista Jefferson Costa e roteirista Rafael Calça, disserta sobre esse tema de forma delicada através dos olhos de uma criança: o querido personagem criado por Maurício de Sousa, que viveu diversas aventuras com Mônica e sua turma, agora enfrenta seus próprios obstáculos ao ser vítima de preconceito pela primeira vez pela cor de sua pele. O racismo é um assunto recorrente em diversas HQs com protagonistas negros, uma vez que, infelizmente, o preconceito faz parte da vida das pessoas negras, especialmente quando essas histórias são ambientadas no mundo real, como no arco de Luke Cage (Marvel Comics).

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Outra história que consegue discutir essa pauta de forma meticulosa são as tirinhas da Rê Tinta, personagem criada pelo quadrinista Estevão Ribeiro, que aborda tópicos como colorismo, palavras e frases racistas enraizadas em nosso vocabulário sem que nos demos conta, privilégios, política, entre outros com humor e ironia expressados por Rê, uma garotinha muito inteligente e questionadora que ensina seus amigos a observar e combater o racismo enquanto um texto escrito pelo autor nos explica o tema sobre o qual Rê Tinta está falando para os amiguinhos.

Faremos também uma menção honrosa à HQ “Contos dos Orixás”, do autor Hugo Canuto, um projeto que tem como objetivo adaptar mitos e lendas de religiões afro-brasileiras para o mundo das histórias em quadrinhos respeitando suas tradições, visto que ancestralidade é um tópico muito interessante de ser exposto, devido ao fato de que tanto no Brasil quanto nos EUA essa identidade foi apagada durante a escravidão, as crenças do continente africano foram negadas, aqueles que foram traficados em navios como propriedade foram maltratados e seus descendentes desconhecem a própria história.

Mais uma HQ que utiliza elementos da cultura africana em seu enredo é “AÚ – O Capoeirista”, do autor Flávio Luiz Nogueira, que recebeu o prêmio Berimbau de Ouro da Associação de Capoeiristas do Brasil por valorização e reconhecimento da capoeira.

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Existir representatividade negra nos quadrinhos, em livros, filmes e etc é crucial para que exista igualdade ou pelo menos que as próximas gerações sejam mais evoluídas e tenham mais respeito que as anteriores. Ademais, fazer com que a existência de personagens e protagonistas negros nas HQs e em qualquer outra mídia venha a se tornar algo normal, sem que ocorra a imediata exclusão desses personagens ou mesmo a recusa de atores negros interpretando personagens que já foram brancos em algum momento.

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Ou que sejam de qualquer outra cor como o Doutor Manhattan, por exemplo, personagem da HQ Watchmen vivido por Yahya Abdul-Mateen II na adaptação da HBO em formato de seriado, mas que foi duramente criticado por ser negro e estar interpretando um personagem de cor azul enquanto Melissa McCarthy – que viverá a bruxa do mar Úrsula no Live Action de A Pequena Sereia -, em nenhum momento foi sequer questionada por interpretar uma personagem de cor roxa, justamente por ser uma atriz branca; ao contrário de sua colega Halle Bailey, intérprete de Ariel, que também foi criticada por ser uma atriz negra e interpretar uma personagem que é branca na animação. Por razões como essa que a representatividade negra se prova tão necessária e urgente, pois infelizmente não podemos caminhar para o futuro enquanto o preconceito estiver nos fazendo regredir.

 

Por Fernanda Iana

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