No último sábado (17), pude presenciar o novo trabalho do diretor russo Andrey Zvyagintsev, MINOTAURO, que integra a 50º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O evento, que acontece anualmente, sem fins lucrativos, apresenta inúmeras produções nacionais e internacionais.
MINOTAURO, que estreia oficialmente nos cinemas em 03 de Dezembro de 2026, com distribuição nacional da Imovision, em parceria com a MUBI, tem em sua bagagem o Grand Prix – conquistado no festival de Cannes 2026. A trama acompa o personagem Gleb, vivido pelo ator Dmitriy Mazurov, um empresário bem-sucedido, com uma boa estabilidade financeira e a clássica aparente vida familiar normal. Até deixar de ser!
O ano é 2022, e o país se prepara para novas batalhas (guerras), e para isso, a nação precisará se doar de corpo e alma em prol do seu lar. Claro que, não é tão fácil assim, uma vez que a sociedade não vê lá grandes vantagens em colocar em risco suas vidas, por uma briga de poder e terras, sem precedentes.
Por isso, muitos homens acabam sendo escolhidos obrigatoriamente, e outros vão pela promessa do dinheiro que irão receber, e assim ajudarem suas famílias. Gleb, não é convocado é claro, e nem precisa se voluntariar em troca de dinheiro, na verdade, é ele quem escolhe os nomes de quem precisará lutar.
A força de quem pode mais, começa aparecer. O protagonista, torna uma decisão difícil, em uma ação fraudulenta em prol dos ‘seus’, protegendo assim seus interesses, sua empresa e seu estilo de vida.
Paralelo a isso, sua esposa troféu, sucumbi ao fardo de estar se apagando e vivendo em torno do marido, da casa e do filho. Gleb, que já se encontrava em uma situação de grande pressão corporativa, entra em colapso e sua vida cuidadosamente organizada, acelera rumo à violência.
MINOTAURO, é uma obra política, que de forma simples, apresenta não só os problemas de uma sociedade, mas como daqueles que detém de maior poder aquisitivo, podem moldar o cenário a favor e bem-estar próprio. Além de levantar alguns questionamentos, como o lugar das mulheres que se relacionam com esses homens, o lugar da esposa, como ser humano, para além de suas obrigações ou apenas uma imagem a ser carregada ao lado do marido. O sofrimento daqueles que precisam abrir mão de si, ou de um familiar, em busca de alimento e dignidade.
Ações violentas por puro ego, para que nada em seu mundo perfeito, seja removido ou modificado, não por amor, mas sim pela ideia de possuir. Ações essas, que ficam impunes, por dois fatores: status e dinheiro, retornando ali para a ideia inicial de que sim, aqueles que possuem mais influência, contornam toda a situação a seu favor, sem nem ao menos pensar em como irá respingar no próximo.
E tudo isso, feito por um personagem que não nos causa ódio, ou qualquer sentimento de repugnância. É facilmente conectado a nós, ou alguém que já conhecemos, não é um ser humano de natureza ruim, e seus atos podem ser até explicados, e talvez perdoados, porque podemos sim, nos questionar, e se fossemos nós, e se fosse eu? Tornando toda a narrativa ainda mais dolorosa.
O final é ainda mais incomodo. Gleb consegue sair impune com sua consciência tranquila, sua vida sem alterações, com tudo estabilizado dentro do seu lar. Enquanto isso, a cena trabalha uma metáfora com as nuvens, que me remete ao entendimento de que “nada muda”. Uma ótima obra para refletir, questionar e se encontrar.
por Bruna Vidal



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