Marcando o retorno do estúdio LAIKA aos cinemas, o filme animado em stop-motion ‘O Bosque Selvagem’ apresenta uma fantasia de tirar o fôlego envolta em uma animação detalhada e em uma história corajosa por ser realista e brutal. Ao carregar uma bagagem de ser uma adaptação de uma trilogia de livros, o longa se destaca por explorar de forma bem calma a sua narrativa para contar sobre acontecimentos passados e personagens.
Durante o decorrer da obra, o ponto de maior qualidade é a animação. O estilo stop-motion em si é belo e traz uma cara de obra de arte para qualquer enredo que utilize esse formato – graças às suas origens manuais. Os cenários da cidade e do bosque flertam com o estilo barroco, medieval e gótico, além de ares de municípios do interior. O que ajuda nessa composição mais visual é a trilha sonora muito bem colocada nas cenas de ação, que marca a fantasia que o filme busca construir e apresentar.
O longa brilha não só no visual e na trilha, mas principalmente em sua construção e em seu desenvolvimento narrativo. A jornada da protagonista, Prue McKeel (dublada por Giulia Benite), se baseia em uma ideia simples: resgatar o irmão mais novo que foi sequestrado por uma bruxa. Aparentemente previsível, mas a forma calma como os diálogos e personagens são apresentados transforma o esperado em um fluxo narrativo mais preocupado em construir e moldar emoções do que apenas criar momentos marcantes.
A previsibilidade é quebrada também com a fantasia. O bosque possui uma mitologia, folclore e lendas próprias, além de pequenas sociedades com reis, políticas e guerras. Todo este contexto traz camadas para a história. A narrativa não tem medo de ser realista e brutal perante tanta fantasia de animais falantes, magia e maldições, sendo este um dos pontos mais fortes e de maior qualidade no longa.
Outro ponto de qualidade narrativo do filme é a antagonista, Alexandra. O contraste e conexão dela com Prue e sua vilania está em um nível de excelência que não se via há alguns anos nas animações. A personagem possui um passado até clichê, porém, a forma como é contado e colocado na obra soa natural devido a construção calma e o contraste consistente entre realismo e fantasia.
Geralmente, um antagonista bom tem ao seu lado um herói à altura. Prue Mckeel foge completamente do que se tem visto atualmente em personagens principais femininas – que reforçam (falando) o tempo todo do seu empoderamento. A jovem mostra a sua força e coragem adolescente, sem fazer afirmações. Além disso, a sua jornada de desenvolvimento não só muda seu eu interior, mas suas relações familiares.
A conexão de ambas as personagens está na história de amor e perda. Os conflitos envolvendo esses temas só reforçam as crenças e pensamentos das duas, o que traz camadas de profundidade e complexidade interessantes de se acompanhar.
Com uma fantasia que lembra ‘O Senhor dos Anéis’ e ‘As Crônicas de Nárnia’, o longa se destaca por caprichar em seu próprio tempo e em entregar sem medo a realidade misturada com uma fantasia magistral e revolucionária em questão de animação. ‘O Bosque Selvagem’ é arrepiante e emocionante em todas as suas frentes. O uso artístico do stop-motion e uma história muito bem construída narrativamente fazem dessa obra uma das mais emocionantes lançadas neste ano. Esses detalhes e pontos bem trabalhados levam o longa a ser um dos favoritos para ganhar o Oscar de ‘Melhor Animação’ de 2026.
Sobre o estúdio LAIKA e o seu futuro
Um dos animadores brasileiros da obra, Thiago Calçado, comentou sobre a força do estúdio LAIKA. Atualmente, a empresa se mantém firme em sua base, e busca inovações e qualidade fora do que o mercado de animações faz hoje em dia.
“A Laika desenvolve o seu stop motion. Os primeiros testes para este filme começaram antes mesmo da pandemia. Ele (o estúdio) foca na originalidade, no storytelling, mesmo que o mercado tenha mudado com a chegada do estilo ‘Aranhaverso’, a Laika se mantém em sua essência“, finaliza.
‘O Bosque Selvagem’ estreou nesta quinta-feira (29) nos cinemas brasileiros.
por Milena Pierrot




