EMPODERAMENTO FEMININO NOS QUADRINHOS: AUTORAS EM ASCENSÃO

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Nesse especial da Butantã Gibicon exploraremos o cenário dos quadrinhos do ponto de vista feminino, mais precisamente falaremos sobre as autoras e o motivo pelo qual não devemos levar em consideração apenas personagens femininas ao falar sobre empoderamento. Ao trazer essa pauta especificamente para os quadrinhos encontramos um obstáculo disfarçado de solução, uma vez que personagens incríveis como Mulher Maravilha e Capitã Marvel são tratadas como símbolos feministas, o que não é algo errado, porém suas origens caem no esquecimento quando ignoramos o fato de que ambas foram criadas por homens.

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As pessoas podem pensar que isso não seja sequer um problema, entretanto quando abordamos esse contexto de acordo com a história da literatura, percebemos que através de séculos personagens femininas que foram criadas por homens eram retratadas apenas através de sua relação com o sexo oposto, que em grande parte das vezes era amorosa ou parentesca. Mulheres eram transmitidas nos livros como românticas, fracas, dependentes, dóceis e submissas – além de quase sempre serem interpretadas como seres difíceis de se entender -, estereótipos que até os dias de hoje assombram constantemente a vida das mulheres. Além do mais, vale ressaltar que nessas histórias os protagonistas eram predominantemente homens e sempre expostos como mais fortes e com maiores responsabilidades que as mulheres, afinal Hamlet morre para vingar a morte do pai enquanto Ofélia morre de amor.

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É claro que essa visão se alterou desde então, algo que não seria possível sem a interferência revolucionária de autoras como Jane Austen e as irmãs Brontë. Todos os livros escritos por Austen são protagonizados por mulheres que quebram os padrões de submissão estabelecidos anteriormente e cujas personalidades diferem entre si, pois cada uma delas tem suas nuances, algo que a escritora soube expressar bem em todas as suas heroínas e outras mulheres que interagem com elas no decorrer da trama. Considerada uma das primeiras obras feministas da história ao abordar a liberdade das mulheres no contexto de uma sociedade patriarcal, o livro “Jane Eyre”, de Charlotte Brontë, além de discutir o papel na sociedade ao qual as mulheres foram obrigadas a ocupar contra a vontade, também questiona outro estereótipo atribuído a elas: a loucura.

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Muito se evoluiu a partir dessas autoras, além da própria Mary Shelley e seu monstro Frankenstein, que conquistaram um espaço consagrado dentre os romances de terror mais famosos do mundo, ao lado do vampiro “Drácula” (Bram Stoker) e do dilema de Dr. Jekyll e Sr. Hyde em “O médico e o monstro” (R. L. Stevenson). Apesar dessa evolução, mulheres escritoras ainda são subestimadas, bem como em qualquer outra profissão, inclusive no meio dos quadrinhos, do qual muitas vezes até mesmo personagens femininas são excluídas, algo que dificulta ainda mais a conquista de espaço das autoras.

55311ba5136aaAo conduzir essa discussão para o presente, no qual editoras gigantes disputam público através de produções audiovisuais enquanto apresentam diversas personagens femininas a fim de atender à demanda de mulheres, que por meio do feminismo, conseguiram expressar que também gostariam de ser representadas, especialmente através das redes sociais. Um exemplo disso é o filme da heroína da Marvel Comics: Viúva Negra, que apesar de ser um dos membros originais dos Vingadores, nunca teve um filme solo, mas que por insistência do público que pressionou a empresa, o lançamento do longa da heroína está previsto para abril de 2020.

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Há quem diga que essas empresas estejam trazendo personagens femininas por acompanharem os tempos, porém essa questão é melhor expressada por meio da lei da oferta e procura, as editoras querem vender produtos que estão em alta no mercado. Em contrapartida, nenhuma das histórias que possuem mulheres como foco são escritas ou desenhadas por mulheres, logo pode-se dizer que embora empresas como Marvel afirmem apoiar a diversidade, preferem não ceder espaço algum para ela, apenas colher frutos de uma luta que não sustentam.

hq-287x300Felizmente no cenário brasileiro dos quadrinhos eventos como a Butantã Gibicon e a CCXP incentivam que autoras (e autores) independentes consigam alcançar um público maior, além daquele já alcançado por meio das mídias sociais, que disseminam de forma positiva a ideia dos artistas independentes. Devemos levar também em consideração o fato de que as gerações atuais estão muito mais interessadas em quadrinhos do que as anteriores, principalmente devido às adaptações de HQs famosas, sendo elas cinematográficas ou não.

A5-D5-C714-CA23-42-DB-BB19-86231-DD3523-DO advento das redes foi fundamental para que mulheres pudessem ter mais destaque ao inserir-se nesse meio artístico-literário e sites como “Minas Nerds” e a revista digital “Azmina” são responsáveis por conversar sobre a pluralidade de papéis que a mulher tem o direito de ocupar na sociedade e como a existência de autoras é primordial para que questões como lugar de fala possam ser discutidas em livros e em quadrinhos, assim como em várias outras mídias.

403-FED3-A-D0-B4-4498-B013-F9969-AF3-EDD1A palestra “Produção de conteúdo feminista online sobre quadrinhos”, que aconteceu na Butantã Gibicon com as jornalistas Gabriela Franco (editora do site Minas Nerds), Gabriela Borges (criadora do site “Mina de HQ”) e Andreza Delgado (criadora da Perifa Con, a primeira Comic Con da periferia), entrelaçou o universo dos quadrinhos com o feminismo, movimento que busca a igualdade social, política e econômica entre os sexos.

femea-do-afro-americano-do-pop-art-com-t-shirt-47649-274Diversas artistas independentes abordam tópicos interligados com a luta feminista, visto que muitos problemas que afetam todas as mulheres são pautas que as quadrinistas procuram ilustrar de forma didática e muitas vezes bem humorada e acessível, para que outras pessoas que não compreendem possam entender. As quadrinistas Heloísa D’angelo e Cecília Marins apresentam as temáticas de forma explicativa e muitas vezes irônica enquanto a quadrinista Carol Borges enaltece a beleza e a força das mulheres que amam ser quem são ao mesmo tempo que exalta a manutenção da autoestima por intermédio do autocuidado.

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Vale ressaltar que o traço do desenho assim como o estilo dos personagens criados pelas autoras em suas tirinhas online e HQs são características fundamentais para que possamos perceber a identidade gráfica das autoras como algo único e particular, alguns exemplos que podemos destacar, além das que já mencionamos anteriormente, são as quadrinistas Camila Padilha e Aline Zouvi. Padilha utiliza muitas cores frias para compor sua arte, das quais sobressaem o lilás e o verde-água enquanto Zouvi possui riscos fortes em seus desenhos, nos quais prefere utilizar o clássico preto e branco, em sua HQ “Pão Francês” notamos que quantidade de olhos é um diferencial.

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Acerca dos assuntos sobre os quais as quadrinistas debatem e as temáticas dos quadrinhos em si, mais do que falar sobre questões exclusivas do público feminino, as quadrinistas possuem projetos de HQs nos quais abordam temas como política, saúde física, mental e sexual ou mesmo coisas do cotidiano.

super-heroi-feminino-de-pop-art-mostra-t-shirt-47649-280“Estranhos” é um projeto que consiste em um conjunto de tirinhas que trata de temas corriqueiros com humor e conversas profundas em tom filosófico. Esse projeto é uma parceria entre a quadrinista Elisa Rissato e Ramon Artur, que cuida do roteiro. “A gente uniu o útil ao agradável ao transformar nossas conversas em quadrinhos”, conta Elisa sobre como surgiu a ideia para a criação do projeto.

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Sobre saúde sexual a ilustradora Nicolle Sartor possui um projeto chamado “Velcro Seguro – O Guia de Saúde Sexual para Mulheres Lésbicas e Bissexuais com Vulva”, que é uma cartilha de saúde sexual feita especificamente para mulheres lésbicas e bissexuais, alertando sobre cuidados a se tomar e dicas de proteção de IST (Infecções Sexualmente Transmissíveis) durante o sexo entre mulheres e suas parceiras, o estilo de ilustração de Sartor é colorido e psicodélico.

Sobre saúde mental a ilustradora Rhebeca Morais explora com suavidade questões como crises de ansiedade, comparando a mente humana em seu turbilhão muitas vezes com o caos perfeito do universo, inclusive a autora transforma algumas de suas próprias crises em tirinhas. Assim como a quadrinista Brendda Maria, que transforma em quadrinhos temas de seu dia a dia e também escreve sobre ansiedade em seus quadrinhos. Sobre saúde física a ilustradora Luiza de Souza coloca em seus quadrinhos dicas de alimentação e exercícios para aliviar o estresse, além de fazer sempre lembrar aos leitores a importância de manter-se hidratado – por favor, tome água.

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Já sobre política, os quadrinhos da artista Bennê Oliveira utiliza seu estilo excêntrico e vibrante para fazer críticas perspicazes e necessárias bem como todas as autoras mencionadas acima, afinal tudo está interligado com política e uma das funções da arte é criticar os problemas da sociedade de sua época. O projeto Políticas HQ, coordenado pelas quadrinistas Carol Ito, Dani Marino (editora do site Minas Nerds) e Thaís Gualberto, constitui uma série de quadrinhos politizados feitos por dezenas de artistas mulheres cis ou trans e foi indicado ao 35° Troféu Angelo Agostini na categoria “melhor webcomics”.

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Escrita ficcional é outro quesito interessante que as autoras fazem com maestria, a quadrinista Gabriela Masson, mais conhecida pelo pseudônimo “Lovelove6” tem um projeto chamado “Sheiloca” no qual cria um universo tribal em que só existem mulheres.

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Por fim, gostaria de ressaltar que um dos principais temas tratados nas HQs dessas autoras é sororidade, que se trata da união de mulheres baseada na empatia. Apoiar e divulgar o trabalho dessas artistas, além de uma honra, é um exercício de irmandade, pois mais do que enaltecer apenas personagens, precisamos reconhecer o trabalho incrível das mulheres reais.

Por Fernanda Iana

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