A PRIMEIRA TENTAÇÃO DE CRISTO: A INDIGNAÇÃO CRISTÃ É SELETIVA?

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Este texto contém spoilers sobre o Especial de Natal do Porta Dos Fundos: A Primeira Tentação de Cristo.

Lembro-me do dia que as professoras da catequese nos ensinaram sobre os Três Reis Magos, aqueles que levaram presentes ao bebê Jesus logo após o seu nascimento (Mateus 2:1-12). O meu eu criança achou o máximo a ideia de haver REIS que ainda por cima eram MAGOS, pensa comigo, o que poderia ser mais mágico que isso? O que eu não imaginava era que, anos depois, a minha fantasia a respeito dos Três Reis Magos iria de mágica para completamente cômica.

Os Três Reis Magos procurando pelo endereço de Maria (Evelyn Castro) e José (Rafael Portugal) é como se inicia o novo Especial de Natal do Porta dos Fundos: A Primeira Tentação de Cristo, que foi lançado dia 3 de dezembro na Netflix e desde então tem tomado a atenção de católicos, evangélicos, líderes religiosos e fãs do trabalho do Porta.

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O longa é uma sátira do Evangelho de Lucas 4,1-13, momento da Bíblia em que Jesus se recolhe no deserto e é tentado por Satanás. No especial, Maria prepara uma festa surpresa de 30 anos para Jesus (Gregório Duvivier), que estava retirado no deserto durante 40 dias “fazendo um mochilão”, e ao chegar em casa a surpresa é mútua: para Jesus, a festa e todas aquelas pessoas inesperadas em sua casa e para seus pais, a presença de um namorado junto do filho, o Orlando (Fábio Porchat).

Como em toda família, a de Jesus não seria diferente: uma festa de aniversário repleta de brigas, fofocas e revelações. Jesus descobre que não é filho de José e sim de Deus Pai (Antonio Tabet), um Deus de coque samurai, que até o momento da descoberta era retratado como Tio Vitório, e que está lá para lhe dar a missão de carregar e espalhar sua palavra pelo mundo. O longa trouxe um Deus perverso, malicioso e que faz a famosa piada do pavê ou pacumê em que todos dão risada (Afinal ele é Deus, né), mas que não aceita o ideia de seu filho ser de humanas e preferir saraus de poesia e malabares a ser o Escolhido.

Assim como em toda comédia que se preze, o especial é dotado de referências, o quarto de Jesus decorado com um quadro dos “Backjerico boys”, músicas que todo católico tem na ponta da língua, Jesus comparando a transmissão da palavra de Deus com o esquema de pirâmide e até mesmo um forró brega que toca para divertir os convidados da festa (que vai dos Três Reis Magos até a uma prostituta chamada Telma).

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Um dos pontos altos da sátira é quando Jesus toma o chá do glaucoma do José, e mesmo achando que “não bateu”, têm alucinações e se encontra com deuses de outras religiões – Buda, Shiva, Já e um ET. O clímax se dá quando Orlando se mostra um “boy lixo” e se transforma em Lúcifer e reivindica sua posição como, também, filho de Deus. “A mamata acabou”, diz Lúcifer, em referência as aventuras dos filhos do presidente Jair Bolsonaro.

O especial lançado há mais de 20 dias, ainda está dando o que falar, mas apesar de todas as reivindicações e tentativas de boicote ao grupo e a Netflix por grupos religiosos, o especial foi renovado para mais um ano.

A produtora que recebeu o Emmy de “Melhor Comédia” pelo especial do ano passado “Se beber, não ceie”, não foi tão certeiro na produção deste ano. Apesar de muitas cenas não muito bem pensadas e um final sem muita empolgação, é possível se divertir com as tiradas inteligentes e piadas bem feitas ao longo dos 46 minutos de duração: Orlando tomando café no copo do Starbucks, José Corno, Maria fumando umzinho, Deus de coque samurai, Jesus de humanas e fã de boyband e até gente reclamando de uva passa na comida.

A obra resultou um saldo de grupos religiosos ofendidos mas também uma discussão muito válida a respeito da hipocrisia e liberdade de expressão. Enquanto grupos religiosos estão indo à Justiça para que o especial saia do ar ao acharem um absurdo a representação de Jesus gay, Maria adúltera e José corno, o Porta está mais tranquilo que nunca: Já lançaram um vídeo em seu canal satirizando toda essa situação., em que representa Jesus indo reclamar a um padre que o Porta dos Fundos está zoando com ele novamente.

Dica: Se você não gosta de sátiras com histórias bíblicas, passe longe.

Ps: Se você é cristão e se incomoda da representação de Jesus como homossexual, o problema está em você.

Nota: ⭐⭐⭐

Por Geovana Miranda

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