“UM MILHÃO DE FINAIS FELIZES” – UMA FICÇÃO MUITO REAL

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A obra “Um Milhão de Finais Felizes” (2018), escrita pelo autor carioca Vitor Martins, conta a história de Jonas, um rapaz gay que mora com seus pais muito religiosos e homofóbicos e que sonha em ser escritor. Sua relação com a mãe é de carinho condicional – palavra que ao contrário de “incondicional”, à qual normalmente associamos ao amor das mães, e que implica na existência de carinho apenas após o cumprimento de determinadas condições, ou seja, é relativo -, enquanto seu pai é explosivo e machista, além de entrar em atrito com o filho sempre que vê uma oportunidade, apesar de desconhecer a homosexualidade do rapaz.

Quanto a ser escritor, Jonas reúne pensamentos e ideias que tem para histórias que poderá vir a escrever no futuro em um caderno que mantém constantemente no bolso, porém ele nunca inicia nenhuma delas. Até o dia em que um rapaz lindo com uma bela barba ruiva surge no Rocket Café, local de trabalho de Jonas, que consiste em uma mistura de Starbucks e Star Wars e que serve bebidas de nomes estranhos e os famosos “meteoros de queijo” (pães de queijo espaciais).

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Deste dia em diante, mesmo sem saber o verdadeiro nome do rapaz, apelidado de “Barba Ruiva”, Jonas encontra a inspiração para sua primeira história, anotada por ele mesmo em seu caderninho como: “Ideia para livro #66 PIRATAS GAYS!!!!!”, Jonas então cria os personagens Tod (inspirado nele próprio) e Bart (inspirado em Barba Ruiva, que mais tarde descobrimos se chamar Arthur) e seu romance em um navio pirata.

Trata-se de um livro extremamente tocante e recheado de esperança, que além de apresentar uma história romântica, fala sobre amor-próprio, autoconfiança, sonhos e família, especialmente a família que foi escolhida pelo protagonista.

“Um Milhão de Finais Felizes” nos fornece diferentes perspectivas de vida e realidade através de personagens muito bem construídos e diversificados, destacando a representatividade negra, feminina e LGBTQ+, e tendo uma visão interessante e responsável para cada uma das letras, o que até então se mostrou algo inusitado nos livros de ficção, todo esse cuidado com os personagens e a criação de suas histórias particulares e únicas mostra que Martins realmente se importa com seus personagens e com a importância que cada vivência deles terá para os leitores.

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Em tempos sombrios de extremismo religioso e diversos outros preconceitos intensificados em nossa sociedade por pessoas cruéis, um livro como esse é definitivamente necessário para todos (e todes), pois trata de questões significativas cuja discussão e compreensão mostram-se urgentes. Posso afirmar com certeza que Vitor Martins é um dos autores mais talentosos com os quais já me deparei em minhas leituras – e eu já li muito nesta vida -, eu me arriscaria até a dizer que “Um Milhão de Finais Felizes” é um dos melhores livros do gênero Jovem Adulto (Young Adult ou “YA”) que já li e com certeza um de meus favoritos.

A escrita de Martins tem leveza, é franca e honesta enquanto não tem receio algum de provocar emoções das mais variadas nos leitores: com “Um Milhão de Finais Felizes” me segurei para não gargalhar em uma sala de espera no dentista e tentei conter as lágrimas enquanto o lia no transporte público e além da vergonha que fez passar em espaços coletivos, eu soube no mesmo instante em que finalizei a leitura que gostaria de relê-lo em breve.

Vitor-Martins-UMDFF-e1533644125857Cada um dos personagens desperta nos leitores uma vontade de conhecê-los melhor e a maneira como eles interagem é concreta e sincera, não apenas nos vínculos românticos, mas nas próprias amizades, que é um dos pontos altos da trama e uma das principais temáticas abordadas por Martins.

Jonas é um personagem empático e fofo, cuja jornada árdua e dificultosa para alcançar a auto aceitação enquanto luta contra tabus impostos a ele através de julgamentos de uma divindade supostamente acusatória e vingativa – e seus seguidores – nos mostra o quanto praticar uma religião nem sempre torna uma pessoa boa. Afinal, as religiões pregam o amor e é simplesmente contraditório praticar atos de ódio em seu nome, algo que Martins soube muito bem como ilustrar de forma clara nesse livro e na própria trajetória de seu protagonista.

Todos os personagens são tridimensionais e cada um possui seus próprios problemas e batalhas para vencer e é possível encontrar a nós mesmos em suas lutas e conquistas, sejam elas profissionais, emocionais, psicológicas ou amorosas, algo que torna esses personagens muito mais acessíveis à realidade. Desde Karina, atriz de teatro muito talentosa, mas que não consegue nenhum papel em seu próprio nicho por ser gorda, até Danilo, que sofre racismo dos próprios parentes de seus pais adotivos por ser um rapaz negro em uma família branca – simplesmente todos possuem algo em comum com os leitores.

UMDFFA ambientação é muito familiar, especialmente para os paulistanos, uma vez que se passa entre o centro da cidade de São Paulo, mais precisamente a Avenida Paulista, local em que o Rocket Café fica localizado e a Região do ABC Paulista, mais precisamente Santo André, município no qual Jonas reside. É interessante como o autor conseguiu transmitir a vida corrida dessa metrópole e suas afluentes em seu livro, especialmente na questão da locomoção entre os dois pontos principais da cidade, Martins soube muito bem como entrelaçar a longa saga de Jonas ao atravessar a cidade todos os dias dependendo basicamente de transportes públicos, como milhares outras pessoas o fazem em São Paulo diariamente.

A história de Jonas, Arthur e seus amigos, que também são família, me encantou, emocionou e divertiu, amei tudo sobre esse livro e afirmo com toda certeza que Vitor Martins é um autor para o qual devemos nos direcionar ao falar sobre literatura brasileira contemporânea, literatura jovem adulta e literatura LGBTQ+, acredito que é um escritor muito promissor e que ouviremos muito seu nome no mundo da literatura em um futuro próximo.

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De acordo com o Jornal O Globo, os escritores brasileiros Vitor Martins e Lucas Rocha assinaram contratos com a editora norte-americana Scholastic Corporation – que publicou a série Harry Potter nos EUA – para o lançamento dos livros “Quinze Dias”, de Martins e “Você tem a vida inteira”, de Rocha no mercado norte-americano.

O romance “Você tem a vida inteira” já tem seu título em inglês divulgado: “Where we go from here” e sua publicação está prevista para junho deste ano, com tradução de Larissa Helena (tradutora e pesquisadora especializada em literatura fantástica e/ou voltada para o público jovem adulto). Já “Quinze Dias” será publicado com o nome “Here the whole time” (“Aqui o tempo todo”, em tradução livre) em novembro deste ano, a responsável pela tradução também será Larissa Helena. Ambos os livros terão algumas adaptações com o intuito de explicar as referências da cultura brasileira utilizadas para que haja melhor entendimento do público americano.

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Mais uma curiosidade que vale a pena ser mencionada sobre esse livro é a censura de livros com temática LGBTQ+ que aconteceu na Bienal do Livro do Rio de Janeiro em setembro de 2018, quando o prefeito Marcelo Crivella enviou fiscais para que houvesse o recolhimento de todos os livros LGBTQ+ do evento, porém felizmente o youtuber Felipe Neto os comprou antes da chegada dos fiscais e os distribuiu gratuitamente para centenas de leitores no próprio evento, embalados em um saco plástico contendo um adesivo com os dizeres “ESTE LIVRO É IMPRÓPRIO para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas. Felipe Neto agradece sua luta pelo amor, pela inclusão e pela diversidade”. Houve um protesto no evento, no qual os leitores levantaram seus livros “proibidos” e pediram o fim da censura.

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Percebemos assim que ser leitor sempre foi um ato político e que a própria literatura possui o papel de transmitir o saber e acabar com a alienação, exemplares de “Um Milhão de Finais Felizes” também foram distribuídos gratuitamente pela equipe de Felipe Neto bem como outro livro do autor: “Quinze Dias” (2017) e centenas de outros autores que escolheram tratar de protagonistas e outros personagens que são minorias em seus livros. Ser LGBTQ+ é resistir, ser leitor é resistir, e especialmente, autores como Vitor Martins comprovam que ser escritor também é resistir.

 

Por Fernanda Iana

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