Natália Sierpinski mostra que a democratização dos quadrinhos é um incentivo social e cultural para a sociedade

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A cena quadrinística no Brasil está em extrema expansão, difundindo novos temas e claro, artistas de talento nato para ilustrar, escrever e produzir quadrinhos, ainda mais com tantos eventos gratuitos nascendo no último ano, como Perifacon, Poc Con e Butantã Gibicon, fazendo com que mais pessoas se interessem a adentrar neste universo da nona arte.

Além disso, esse nicho literário tem mostrando que quadrinhos não é apenas para homens, e tampouco que mulheres só leem coisas fofinhas e delicadas, a democratização do gênero é ampla e significativa para a cultura pop, que ganha mais leitores e claro, novos artistas para produzir artes extraordinárias.

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Foto por Luanna Romão

Um exemplo de pessoa de difunde e partilha deste pensamento, é a Mestranda em Ciências da Comunicação pela ECA-US, Natália Sierpinski, que foca sua pesquisa sobre a autoria feminina nas histórias em quadrinhos no Brasil, e também é Licenciada em Educomunicação pela ECA-USP, com TCC sobre o uso das histórias em quadrinhos para debater sobre gênero e sexismo no ensino médio das escolas públicas, que bateu um papo conosco e revelou quão gratificante é difundir as histórias em quadrinhos na rotina de diversas pessoas.

Natália ainda é editora do portal Minas Nerds e também, fez parte do livro coordenado por Dani Marino e Laluña Machado, “Mulheres & Quadrinhos“, lançado no final de 2019 pela editora Skript.

O Barquinho Cultural – Você como mestranda em ciências da comunicação e licenciada em Educomunicação, como vê a cena quadrinística nacional como forma para incentivar e propagar a leitura e a cultura entre os jovens no Brasil?

Natália Sierpinski – Acredito que as histórias em quadrinhos além de incentivo a leitura também trazem narrativas complexas que podem fomentar interesses diversos entre seus jovens leitores, sendo muito importante termos espaços em que esses conteúdos possam chegar a toda a população de forma democrática. Com a internet e as webcomics tivemos um maior acesso nesse sentido, mas vejo nos eventos nacionais de quadrinhos com entrada gratuita, como a Perifacon, Poc Con e o Butantã Gibicon (este, em que contribuo como voluntária), são espaços que conseguem de fato trazer uma aproximação dos jovens a esta cultura além de trazer uma aproximação com os próprios artistas, espaços de discussão, sendo relevante destacar também que além de serem eventos que fomentam público, também focam em questões sociais e de igualdade, cada um da sua maneira.

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OBC – Entre suas pesquisas e oficinas citadas no livro Mulheres & Quadrinhos com os estudantes, o que você levou a campo para sua pesquisa ou até para sua vida pessoal? Você acredita que há ideias, basta apenas um estímulo para pôr em prática e apresentar – talvez – novos talentos da nona arte?

Natália – Os processos e resultados que tive das minhas oficinas e formações com jovens mostraram a profundidade da linguagem das histórias em quadrinhos e a importância de um processo educativo que fale sobre a não neutralidade de toda narrativa, principalmente nos últimos contextos políticos que estamos vivenciando em que é muito colocado que a educação deve ser neutra, o que omite que esse discurso já apresenta uma posição – que não é neutra. Assim, em minhas formações ter esse debate com os jovens sobre a importância da escolha do que é colocado no quadrinho, como é colocado, e do que é escolhido ser omitido, contribuem para no final termos produções dos alunos que trazem reflexões sociais. O foco das minhas formações com quadrinhos é sempre a partir do debate, desconstrução ou construção de uma narrativa em quadrinhos e termos um debate social como plano de fundo (gênero, diversidade, saúde mental, por exemplo) mas ao mesmo tempo, apesar de serem oficinas e aulas que não focam tanto em questões técnicas, muitos alunos de fato já desenham ou já tem interesse na produção de quadrinhos, e ao entender mais sobre construção de roteiro e narrativa, acabam aprofundando os estudos e se dedicando para esta área, então acho possível ser também um estímulo neste sentido sim.

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OBC – Além de educadora, você ainda é editora no Minas Nerds, um site que visa apresentar de maneira distinta e singular a outros meios de comunicação. Você acredita que este pensamento pode ser uma mudança para cambiar algumas mentes e ideais na sociedade? Por quê?

Natália – Acredito que sites e espaços de formação de conteúdo produzidos só por mulheres atualmente, como o Minas Nerds, são importantes devido a falta de espaço que temos na sociedade, historicamente o ambiente nerd foi colocado como masculino, feito de homens para outros homens verem, apesar de termos estudos e estatísticas que mostram que a quantidade de mulheres lendo quadrinhos e jogando videogames tem aumentado a cada ano, por exemplo, ainda é todo um processo cultural lento de desconstrução de conceitos e atitudes machistas que permeiam esse meio. Questões de gênero não são apenas um tema em si – podem ser também – mas são uma perspectiva, um olhar, uma forma de tratar de determinado tema ou fazer determinado recorte sobre uma discussão, uma resenha, um evento, da mesma forma que a educação não é neutra o discurso jornalistico também não o é, assim, termos mulheres produzindo conteúdo sobre cultura pop traz novas perspectivas de temas que as vezes eram falados apenas pela ótica masculina, e assim tendo os seus preconceitos naturalizados, acredito que esse é o maior ganho que pode fomentar mudanças para as novas gerações, recontar e contar novas matérias visando quebrar sexismos e estereótipos antes colocados como naturais e “pautas óbvias”, além é claro, de sempre priorizarmos dar destaque para a produção de mulheres na cultura pop, prioridade que não é feita pelas mídias hegemônicas por exemplo.

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OBC – Como você vê a cena quadrinística no Brasil atual, seja para homens ou mulheres? Você acha é promissora ou ainda há tabus e receios a serem enfrentados?

Natália – Acho que é complexa e engloba os dois pontos. É promissora no sentido que temos mais artistas novos conseguindo produzir e divulgar o seu trabalho com um custo menor do que era uns 30 anos atrás, por exemplo, em que era preciso imprimir por conta e distribuir manualmente ou por correio as suas HQs, agora com a divulgação pela internet e com os sites de financiamento coletivo, fica mais viável para o artista ter suas primeiras publicações e futuramente, se for a sua vontade, tentar chegar a uma publicação por editora, por exemplo. Ao mesmo tempo, a logística da distribuição ainda é centrada em um monopólio de distribuição, o que encarece muito o preço dos produtos, dado a dimensão do tamanho do país, que dificulta a consolidação dos quadrinhos independentes no Brasil a chegarem em todos os estados, salientando uma dependência com as editoras nesse sentido. Ainda nesse contexto, temos uma grande desvalorização do trabalho dos artistas de modo geral, em que os custos com material, formação, tempo de produção e gasto com eventos não são colocados na balança com muita frequência, vejo muitos relatos de “vagas arrombadas” que não visam um pagamento decente para os artistas, e no Brasil ainda hoje temos poucas editoras consolidadas que possam dar um retorno financeiro melhor e sendo poucas, a quantidade de artistas contemplados não chega a ser suficiente. Assim, temos muitos artistas se desenvolvendo, publicando e fazendo trabalhos incríveis, mas muitos ainda que não conseguem viver do lucro dessas produções e precisam procurar outras formas para se sustentar, o que na prática acaba reduzindo o real potencial que temos no momento para o cenário de quadrinhos no Brasil.

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Foto por Priscila Visconti

OBC – Como foi fazer parte junto a mais de 100 incríveis mulheres, no livro Mulheres & Quadrinhos? Você acredita que este é um incentivo à futuras autoras, editorias, ilustradora e quadrinista? Por quê?

Natália – Foi uma grande honra estar na mesma publicação que tantas outras mulheres fantásticas, que possuem trabalhos que admiro bastante. Acredito que esta publicação vai ser importante, pois como comentou a própria Dani Marino no lançamento de São Paulo, essa quantidade de autoras não representa nem 1/5 do total de autoras do país. Assim, além de reforçar que existem sim (e muitas) mulheres produzindo e falando sobre histórias em quadrinhos no Brasil, também mostra que as produções possuem os mais diversos temas, abordagens e traços, desmitificando o estereótipo de “temas femininos” por exemplo, além de ser uma possível vitrine para editoras e novos trabalhos para as artistas envolvidas, também é uma obra importante para todas as futuras autoras que poderão ter este livro como referência e representatividade ao pensar a questão da autoria feminina nos quadrinhos.

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Arte por Dhiovana Barroso

Para conhecer mais sobre os projetos e carreira da Natália Sierpinski, basta entrar em contato através de suas redes sociais e trocar ideias e conferir sua agenda sobre palestras e painéis.

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Por Patrícia Visconti

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